Professora em tratamento devido a transtornos mentais: no ano passado, 8% dos docentes da rede municipal de ensino entraram de licença por problema semelhante
Professora em tratamento devido a transtornos mentais: no ano passado, 8% dos docentes da rede municipal de ensino entraram de licença por problema semelhante.

Professora de Língua Portuguesa da rede municipal por oito anos, Marise (nome fictício) costumava dizer que não se via fora da sala de aula, exercendo outra profissão. Nunca imaginou que o lugar que tanto gostava pudesse lhe causar uma depressão profunda, provocada por tensões no ambiente de trabalho e pela violência. Em 2014, ela ficou quatro meses afastada.

— Vai passando o tempo, e esse desgaste te causa tristeza e medo. Eu morava perto da escola, ouvia piadas diárias sobre minha situação. A sensação é muito ruim. Você faz o melhor para um grupo que não te dá o menor valor — diz a docente, de 43 anos. Links Educação

Em 2018, uma troca de tiros no colégio onde trabalhava, no Rio Comprido, fez com que uma nova licença fosse necessária. Foram 15 dias até que pudesse voltar ao batente. No retorno, viveu momentos que ainda a deixam transtornada.

— Fiquei sozinha com 20 alunos no corredor da escola, em meio a um tiroteio. Depois, fui para casa e não consegui dormir, vomitei muito, passei mal. Não tinha mais o controle da situação. Não conseguia encarar as crianças que choravam, perguntando pelos pais e querendo saber se o barulho que ouviam era de tiro. Foi barra pesada — conta Marise.

Os episódios relatados por ela não são exceções. No ano passado, a cada três horas, um professor da rede municipal de ensino do Rio se afastou do trabalho alegando problemas mentais. Ao todo, a Secretaria de Educação concedeu 3.055 licenças, emitidas em virtude de doenças como transtorno ou reação ao estresse, depressão e esquizofrenia. O número foi obtido junto à prefeitura por meio da Lei de Acesso à Informação.

A estatística corresponde a 8% do quadro de professores do município, que hoje conta com 38.881 docentes. O licenciamento é um passo posterior ao afastamento por motivos médicos, feito por meio de atestados. Somente no ano passado, foram registrados 29.495 atestados de seis dias por questões de saúde mental.

Não apenas de problemas psicológicos sofrem os docentes. Um total de 1.926 afastamentos foi autorizado ano passado por conta de doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo. Isso inclui artroses e Lesão por Esforço Repetitivo (LER), por exemplo.

Segundo professores, o ensino é estressante por causa das más condições de trabalho: entre as queixas mais comuns estão a alta carga horária, conflitos com alunos, violência e falta de estrutura. O problema cria um desafio para o município, que precisa substituir os afastados para manter as aulas.

— A saída acaba sendo o famoso jeitinho. A turma fica um tempo sem professor ou o diretor da escola assume o horário. Também acontece de um docente dar aulas para duas turmas ao mesmo tempo. Às vezes, um inspetor é colocado dentro de sala de aula para tomar conta dos estudantes durante o tempo ocioso — afirma Gustavo Miranda, coordenador-geral do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (Sepe-RJ).

Segundo Miranda, a quantidade de licenças na rede municipal de ensino é alarmante:

— Salas lotadas são um dos fatores que mais impactam na vida do professor. Além disso, há a violência. É necessária uma política para lidar com a questão das licenças de forma preventiva.

Em 2016, a professora Roberta (também um nome fictício) ficou afastada das salas da aula durante todo o ano letivo. Ensinava em uma escola na região do Complexo do Chapadão e não suportou a rotina de violência. Teve depressão, síndrome do pânico e agorafobia (transtorno de ansiedade cujos sintomas incluem medo de lugares).

— Eu era cobrada e não conseguia trabalhar. Ficava angustiada, apreensiva — lembra Roberta, que hoje se submete a tratamento com medicamentos e sessões de psicoterapia.

Situação semelhante vive uma professora que se afastou de uma escola de Santa Teresa. Ela conta que passou por experiências que lhe tiraram o prazer e a capacidade de lecionar.

— Eu preparava as aulas com carinho, disposta a ensinar o melhor. Mas os alunos não queriam, chegaram ao ponto de colocar as cadeiras de costas para o quadro negro. Cheguei lá um dia e não queria mais voltar. Fiquei sem rumo. Hoje, não sei mais o que fazer da minha vida — diz a professora, que viu seu cabelo cair e manchas surgirem por todo o corpo.

Diretora da Associação Brasileira de Psiquiatria, Fátima Vasconcellos afirma que é hora de se buscar uma solução para um problema que, como mostra o número de licenças, ganhou grande proporção:

— É necessária uma maior divulgação do que está acontecendo nas escolas, criar um programa de atendimento específico que também tenha o objetivo de acabar com o preconceito, pois ele existe.

Em nota, a Secretaria municipal de Educação informou que, atualmente, há 800 professores afastados, e que a reposição é feita temporariamente, a partir da concessão de duplas regências temporárias. Questionada sobre ações para a saúde dos docentes, o órgão destacou que que trabalha “na consolidação de canais de escuta e valorização dos servidores, com vista ao atendimento de questões administrativas e funcionais.”