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Weintraub admite uso de técnicos do MEC para apagar seu verbete da Wikipédia

Abraham Weintraub confirmou que usou a força de trabalho do Ministério da Educação, pasta que chefia no governo de Jair Bolsonaro (PSL), para tentar apagar seu perfil biográfico na Wikipédia, enciclopédia online escrita e editada de forma colaborativa. O ministro trava uma guerra com editores da plataforma por discordar da forma como ela descreve sua vida pessoal. Procurado, Weintraub nunca respondeu aos questionamentos da reportagem sobre o assunto.

Mas, recentemente, foi obrigado a se manifestar sobre o caso após ser questionado em um requerimento de informações enviado pelo deputado Marcelo Freixo (PSOL) até seu gabinete. Freixo, em discurso no plenário da Câmara Federal, chamou de “grave e não republicano” o uso feito pelo ministro da máquina pública para fins pessoais. O parlamentar listou seis perguntas, que foram respondidas por Weintraub no dia 18 de outubro.

Numa delas, o deputado questiona a atuação de consultores da área jurídica do MEC, acionados para analisar a retirada da página de Weintraub na Wikipédia. No documento obtido pela reportagem, Weintraub diz que o trabalho dos técnicos no caso tem previsão legal. “A utilização das equipes técnicas deste ministério da Educação fundamentou-se na competência regimental prevista no Decreto nº 9.665/2019”, que aponta a consultoria jurídica como órgão responsável por assessoramento e representação institucional do Ministério da Educação.

Em nota técnica, os consultores chamaram o verbete do ministro de “perfil falseado” e recomendaram que ele acionasse a AGU (Advocacia-Geral da União) para representá-lo num possível processo judicial contra a Wikipédia. As informações, contudo, são verídicas de acordo com as fontes de referência sobre o ministro. Segundo os consultores, “a página eletrônica faz diversas referências ao ministro da Educação e não somente à pessoa física Abraham Bragança de Vasconcelos Weintraub”, segundo trecho da nota técnica anexada às respostas do chefe do MEC no requerimento.

Em junho, Weintraub pediu à Wikipédia para apagar seu verbete na enciclopédia. Sem ser atendido, usou a assessoria do MEC não então para derrubar a página, mas para editá-la. A própria equipe de Weintraub passou a editar o verbete do ministro, mas todas as modificações foram desfeitas pelos editores da enciclopédia. Foi aí que o chefe do MEC ameaçou processar a plataforma na Justiça.

Questionado por Freixo se processar a Wikipédia não configuraria censura, Weintraub respondeu que não. E que só busca “afastar incorreções publicadas sobre dados pessoais objetivos da autoridade citada” e, como qualquer cidadão, tem o direito de levar a questão ao judiciário. O ministro se queixa de que seu verbete contém informações incompletas “sem a menção expressa às datas dos fatos”, o que, para ele “acaba induzindo o leitor a uma compreensão equivocada”. Ele cita dois exemplos que necessitam de edição.

O primeiro trata de acusação de nepotismo após ter assumido cargo de professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), onde também trabalham sua mulher e o seu irmão. Em entrevistas, o ministro disse que foi aprovado no concurso “porque outros candidatos não apareceram no dia”. O segundo é a tentativa de interdição judicial do próprio pai, o psiquiatra Mauro Weintraub, em 2011. Mauro foi perseguido pela ditadura militar e é autor do livro: “Sonhos e Sombras: a Realidade da Maconha”, que defendeu a descriminalização da droga no início dos anos 1980, uma postura progressista para a época. O pedido de interdição do pai do ministro foi indeferido por falta de subsídios, segundo a Justiça.

“Tais [fatos] serão esclarecidos assim que for aberta a possibilidade de complementação das informações”, afirmou Weintraub na resposta aos questionamentos de Freixo. A página de Weintraub foi criada em 8 de abril, quando ele foi anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) como ministro da Educação no lugar de seu antecessor, Ricardo Vélez Rodriguez. De lá para cá, o verbete de Weintraub sofreu 275 edições —essa conta inclui todas as mudanças salvas na página.

Segundo as regras da enciclopédia, edições de conteúdo só podem ser feitas se estiverem amparadas por fontes verificáveis, como documentos públicos e reportagens. O biografado não pode, como fez Weintraub, entrar na própria página e apagar informações reais e já tornadas públicas, principalmente as que mancham a própria trajetória. É também por isso que o verbete do ministro encontra-se protegido, uma maneira de blindar a biografia de figuras públicas de vandalismo, fake news e da chamada “guerra de edições”.

Nessa mesma situação estão os perfis dos ministros Sergio Moro (Justiça), Damares Alves (Direitos Humanos), além do verbete dedicado ao presidente Jair Bolsonaro e daquele de seu vice, Hamilton Mourão. Com esse status, o perfil de Weintraub só pode ser editado por voluntários que atingiram a categoria de administradores. Esses “supereditores” têm no histórico ao menos 2.000 edições registradas e boa reputação na comunidade.

A página lusófona (para falantes da língua portuguesa) da Wikipédia possui cerca de cem administradores. Hoje, 46 editores recebem alertas sobre qualquer alteração feita na biografia do chefe do MEC. Para Rodrigo Padula, 37, um dos administradores da enciclopédia, o ministro “não queria em sua página nada de negativo sobre a relação dele com sua família”. “Mas ele precisa entender que não inventamos informações. Tudo o que está lá, tem fonte e repercutiu na imprensa”, diz.

Foi Padula quem recebeu a primeira notificação extrajudicial de Weintraub que, caso não fosse atendida, culminaria com a Wikipédia processada. Ele acionou a Wikimedia Foundation, entidade baseada em São Francisco, na Califórnia (EUA), que gere a Wikipédia. A entidade, segundo Padula, acompanha a situação de perto e ofereceu assessoria jurídica caso a questão seja levada à Justiça. Até agora, diz, nenhuma notificação judicial chegou às mãos do administrador.

Mas nem por isso, novas polêmicas deixaram de ser acrescentadas ao verbete do ministro, como o seu histórico escolar com reprovações em nove disciplinas do curso de economia da USP, os erros gramaticais em ofício, o contingenciamento de recursos para as universidades públicas e discussões com manifestantes do Pará.

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